A reforma agrária, via divisão familiar, também se deu no Vale dos Vinhedos. Outrora, quando o Vale ainda não era Vale, muitas famílias acabaram dividindo suas terras por questões de herança e com isto as propriedades foram diminuindo, consequentemente, as áreas com vinhedos.
Esta é uma das razões pelas quais muitas das famílias não só do Vale, mas de toda a região, possuem em média 2 hectares de vinhedos por propriedade. Muitas das quais tinham duas ou três colônias e nestas dimensões a agricultura familiar dependente da monocultura da uva era viável.
Bastante comuns são os casos de famílias que não conseguem mais viver da uva, fazendo com que seus filhos e esposas acabam por trabalhar na cidade ou em fábricas próximas as suas terras, quando não, alguns optam por trabalhar em vizinhos que não passaram ainda pela reforma agrária hereditária ou por terem adquirido ao longo dos anos área maior do que lhes coube na imigração.
Próximo a minha casa há famílias que dificilmente seguirão com a produção de uvas. Os homens estão envelhecendo e próximos da aposentadoria, portanto, o que ganharão sem trabalhar será suficiente para sobreviver sem o árduo trabalho de cuidar das videiras. Suas esposas já trabalham na cidade e seus filhos não querem saber do parreiral.
Alguns ainda precisam ajudar na manutenção da mãe, que mora na cidade na casa de uma irmã e com isto a renda da produção de uva em área tão pequena não é mais interessante.
Os próximos 10 anos serão cruciais para estas famílias e, provavelmente, passaremos por um período de dificuldade de oferta de uva, que será suprida por matéria-prima vinda de outras regiões do Estado ou até mesmo de fora. Como sabemos, a mecanização em nossa região é difícil e o preço da terra inviabiliza a sua utilização para a produção da fruta.
Dificilmente estas propriedades continuarão com a sua vocação vitícola, pois em sua maioria serão transformadas em sítios, pousadas ou qualquer outro empreendimento voltado para o turismo. Apenas as famílias com áreas maiores e/ou proprietárias de uma pequena vinícola conseguirão sobreviver, consequentemente, o Vale dos Vinhedos perderá e muito na sua paisagem rural.
Infelizmente, as lideranças do Vale dos Vinhedos não conseguem visualizar esta futura realidade e por esta razão são as maiores culpadas pela quantidade enorme de propriedades a venda, sujeitas a formação de loteamentos, sítios, etc.
A ilha de Páscoa está com um programa de contenção de visita de turistas e da imigração de pessoas do continente. Ela está mais ou menos eqüidistante de qualquer continente em torno de 4.000 km. Quando foi descoberta no Século XVI por holandeses já estava em vias de destruição. A ilha de Páscoa é um exemplo para o mundo em relação a questão ambiental. Seus habitantes não tinham para onde ir: como viajar 4.000 km a remo? A terra, não sendo cuidada, restará apenas buscar outros planetas, ainda impossível.
As empresas do Vale dos Vinhedos podem buscar outras áreas para produzir a uva que precisam, mas será um engodo, ou seja, vinho do Vale feito com uvas fora do Vale e o desenvolvimento que deveria ter sido em prol da comunidade, se deu apenas para uma meia dúzia de 2 ou 3.
Triste realidade, a da agricultura familiar da Serra Gaúcha. Pior, prá nada servirá a almejada Denominação de Origem do Vale dos Vinhedos, pois será novamente privilégio de 2 ou 3.
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