terça-feira, 6 de outubro de 2009

Miolo Wine Group compra Almadén

Primeiro, gostaríamos de felicitar o Miolo Wine Group pela aquisição.

Como bem diz o economista José F. Protas, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho: “O mundo todo está partindo para a formação de grandes oligopólios [no setor de vinhos]”, não apenas no vinho, vejam as fusões/aquisições dos frigoríficos de aves e carnes, entre outros, não só aqui como em todo o mundo. Ícones nacionais, como a cerveja Budweiser, sendo adquiridos, no caso, pelo grupo criado entre Ambev/Inerbrew e isto continuará, mesmo que oligopólios sejam uma falha de mercado, passíveis de intervenção governamental.

No meu tempo de estudante de economia a prática de oligopólio era tão condenada quanto à de monopólio, mas os tempos mudaram – lei, ética e moral sempre estão atrás do tempo. A lei agora é a do Mercado, ou a Lei da Selva, pois denota um certo canibalismo haja vista que empresas dirigidas por grandes CEO’s devoram outras empresas cujos CEO’s não foram competentes o suficiente. Isto é normal e até elogiável, meritocrático, só falta Prêmio Nobe. Portanto, não há nada errado, afinal, é o modelo vigente e tido como correto, no mínimo sob o ponto de vista dos negócios.

A transação é elogiável, pois mostra que o Miolo Wine Group está no caminho certo do empreendedorismo moderno, fez e faz alianças estratégicas, compras e expansão mundial dos seus negócios, mas também pelo fato de uma empresa nacional - ainda não uma grande corporação – compra uma unidade de grande corporação multinacional, fato de muito orgulho para os brasileiros.

Com a compra, a Miolo Wine Group passará a ser líder de mercado de vinhos finos, com a Aurora e a Salton, as três tomarão conta de mais de 80% do mercado de vinhos finos para produtos nacionais. Uma concentração digna de dar inveja aos países do Novo Mundo, inclusive, a Austrália.

Por outro lado, o Miolo Wine Group passa a ser também o maior proprietário individual de vinhedos no Brasil, com um total de 1.150 hectares, compatível também com o tamanho das propriedades vitícolas do Novo Mundo. Fato interessante é o que o grupo passa a ter sozinho uma área de vinhedos maior do que a metade de todos os vinhedos do Vale dos Vinhedos, inclusive com aqueles de uvas americanas, cujo último dado aponta para 2.123 hectares, por pouco que estes três não viraram loteamento, ufa!

Considerando apenas as uvas viníferas, esta área do grupo deve representar o triplo da área do vale.

Mas o feito foi muito bem visto por vários líderes do setor, o presidente Hermes Zaneti da Câmara Setorial do Vinho, o presidente Denis Debiasi do Ibravin, bem como o presidente Olir Schiavenin do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Flores da Cunha e da Comissão Interestadual da Uva, este, aliás, com muitos elogios, senão vejamos: “as vinícolas que mais honraram o pagamento pelo preço mínimo da uva foram as grandes ... uma amostra de que, quanto mais grupos organizados se aliam, mais um setor se fortalece ... individualmente vamos ter mais dificuldade de nos sustentar na atividade”, pondera.

O curioso é que esta mentalidade progressista, digna de um ferrenho neoliberal, não se aplica nos sindicatos dos trabalhadores rurais, que só sabem reclamar de preço mínimo e nada fazem para dar sustentabilidade ou viabilidade econômica e social para a agricultura familiar produtora de uva. Sabe-se, perfeitamente, que proprietário rural, mesmo pequeno, não é trabalhador, pois é detentor dos meios de produção, portanto, nunca trabalhador ou operário da terra.

Concordo plenamente com o representante dos sindicatos dos trabalhadores rurais, pois é preciso de fato concentrar as propriedades, na contramão do que prega o MST, só assim estaremos fazendo uma verdadeira revolução agrária, como diz o Lula: “jamais vista na história deste país”, mais competitiva e digna dos padrões do agrobusiness mundial.

Afinal, é possível haver latifúndio de bancos, latifúndio de montadoras de automóveis, latifúndio de carnes de frango e gado, latifúndio de meios de comunicação e tantos outros, por que não latifúndio de vinícolas.

Este é o caminho. Com números e façanhas tão impressionantes, eu só não entendo uma coisa: pra que o Selo Fiscal? Onde está a crise? A quem serve, ou a quem desejam atacar?

Economista Werner Schumacher
Blog: http://werner.schumacher.zip.net

Um comentário:

  1. Eu adoraria saber por que ninguém da grande mídia cogitou do preço pago pela Miolo nessa transação e por que ninguém perguntou o motivo que levou a Pernod Ricard se desfazer da Almadén. A mídia só reproduz os "releases" distribuídos pelas próprias empresas. Parece que os pilares clássicos da notícia - "quem, o que, onde, como e por que", há muito foram deixados de lado pelo "novo" jornalismo.

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