segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Os esforços do setor estão corretamente direcionados?

A venda de vinhos de janeiro a outubro deste ano aumentou quase 13% em relação ao mesmo período do ano passado e isto se deve – em parte – a publicidade e ações do Ibravin nacionalmente.

Deve-se dizer em parte, pois em recente matéria divulgada no jornal Pioneiro, foi atribuído ao aumento da venda de vinhos a adoção do selo de controle fiscal para sangrias, coquetéis, etc.

No entanto, nesta reportagem publicada em 28/11/09, não consta qualquer referência se as vendas desses produtos caíram, aumentaram ou se mantiveram estáveis. Também, não informa que o principal fabricante destes produtos, uma empresa do Rio de Janeiro, está desobrigada, por força de uma liminar, de usar o selo fiscal.

Por principal produtor, entende-se hoje, com parcela importante do mercado. Podemos citar como exemplo o fato de menos de 0,5% dos fabricantes de refrigerante brasileiros dominarem 80% do mercado, ou o fato de que 3 vinícolas brasileiras dominam quase 80% do mercado de vinhos finos, desconsiderando os importados.

Voltando ao investimento nas campanhas do Ibravim, que felizmente contribuiu para o aumento das vendas, deve-se questionar sobre o principal problema hoje da cadeia vitivinícola nacional, que é o excesso de oferta de uva e a dificuldade dos produtores de receber um preço justo pela fruta e a garantia do seu pagamento.

Praticamente, sem ou quase nada de investimento publicitário e promocional, a venda de suco de uva aumentou 41% no mesmo período e de acordo com informações veiculadas na mídia local, vem crescendo 40% ao ano desde 2005. Dizem que 45% da uva produzida no Estado em 2009 foram destinadas para sucos.

É, no mínimo curioso, o fato de se estar crescendo em média a 40% ao ano e isto não chamar a atenção das nossas lideranças, como sendo a salvação para a maioria dos produtores rurais.

Infelizmente, o setor não pensa como a Coca-Cola, que pretende dobrar de tamanho até 2014 e para isto precisa crescer 14% ao ano. Isto não é tarefa fácil, já que sozinha a corporação ja faz cada brasileiro consumir anualmente 50 litros dos seus produtos (refrigerantes, “sucos” e chás).

O consumo de sucos no Brasil é baixo e um aumento pequeno de consumo, nem meio litro, seria suficiente para dobrar a nossa produção de sucos. Ora! Crescendo 40% ao ano e, persistindo esta taxa de crescimento, para 2014 a nossa produção deverá setuplicar (aumentar 7 vezes).

A indústria conseguindo atender este potencial de demanda, pode significar que em 2011 faltará uva para sucos e por esta razão se faz necessária indagar quais serão os reflexos disto:
- o preço da uva para sucos aumentará e muito Cabernet, Merlot, etc., será misturado as uvas de mesa, consequentemente, o preço será superior ao mínimo e o pagamento deverá ser feito a vista, pois o produtor está cansado de levar calote;
- vinhedos de viníferas serão substituídos por aqueles de uva de mesa, menos trabalhoso e com custo de produção substancialmente mais baixo. Provavelmente, vinhos finos será privilégio de quem tem vinhedos próprios. Principalmente, se o Real continuar apreciado, a moeda mais sobrevalorizada do planeta;
- as indústrias “brasileiras” pedirão ao governo para importar mosto concentrado a fim de misturar com os nossos e produzir suco diluído. Este suco acabará estragando a imagem do suco natural e integral, provocando nova crise.

Para não se alongar, isto é previsível por uma simples razão, o setor não tem visão de futuro e não sabe planejar como a Coca-Cola. Não sabe ler as suas estatísticas e fazer projeções, enfim, é pouco profissionalizado.

Aliás, cabe lembrar que o Plano Visão 2025 está engavetado, embora não previa este expressivo aumento na venda de sucos, mais, não deu a devida importância a este produto.

Por fim, cabe ressaltar que as vendas de espumantes aumentaram quase 15%, mesmo com praticamente nada de ações promocionais. Vale o comentário, ontem veiculou publicidade de um espumante brasileiro cuja paisagem retrata os Alpes Suíços, o que isto tem a ver com nós?

Prefere-se investir na imagem de um produto pouco competitivo, a solucionar o problema de milhares de famílias produtoras de uva. É, parece que o nosso foco está equivocado.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A sua cantina poderá ser a próxima a desaparecer

Apenas três, vejam bem, três entre cem empresas familiares conseguem chegar a 3ª geração. Isto significa dizer: quando não quebra com o(s) fundador(es), quebra na 2ª geração, ou seja, com o(s) filho(s) do(s) fundador(es).

Você deseja este futuro para a sua cantina?

Não sendo este o seu caso, está na hora de começar a pensar.

A uma falsa expectativa de que as empresas vinícolas são perenes – para sempre – no entanto, basta olharmos um pouco para trás e veremos que isto não é verdade. Muitas das nossas importantes vinícolas familiares ou quebraram, ou fecharam, ou foram compradas.

Quem não se lembra da Dreher, da Mosele, da Luiz Antunes, da Mônaco, da Michelon, da Vinícola Riograndense, da Georges Aubert, da Peterlongo, da Beltrame e tantas outras. Das cantinas familiares que estão na 3ª geração, parece restar apenas a Salton.

Isto ocorre porque as empresas familiares não se preocupam com o futuro, ou seja, com a sucessão. Apenas 5% se preocupam com isto, pois está enrustido no fundador o desejo de mandar até que a morte o leve e a existência de certo receio do sucessor em buscar o comando, para não ferir os brios do pai.

O fundador precisa ter presente que o seu sucessor deve estar no comando lá pelos 35 ou 40 anos, caso contrário será sempre – para os funcionários - o chefinho e isto não é saudável para todos. Assim, aqueles que são candidatos a sucessor cabem refletir sobre a hora de casar, ter filhos, etc. e calcular isto de acordo com o momento de suas vidas em que desejarão parar de trabalhar.

Uma sucessão não é tarefa fácil, vejam ao caso do grupo Gerdau cujo processo durou anos, ou o caso das Lojas Colombo, em que a dificuldade de sucessão é grande.

Cabe ressaltar que empresas como Mouton Rothschild, Antinori, Miguel Torres, Veja-Sicilia, entre outras, formaram uma associação para defender as vinícolas, seu patrimônio e os valores familiares. Veja mais em: www.pfv.org.

Por outro lado, o empreendedorismo é necessário para a vida de qualquer pessoa em qualquer atividade. As mudanças nas profissões e nas nossas vidas são freqüentes e cada vez mais com incrível rapidez. Todos devem estar preparados para isto e desenvolver a capacidade de empreender é o melhor que os pais podem dar para os seus filhos e para isto não basta a melhor formação escolar possível.

Também, assistimos diariamente fusões e incorporações de empresas. Menos de 0,5% das empresas de refrigerantes que disputam o mercado brasileiro detêm 80% deste. No caso dos vinhos finos, 80% do mercado estão nas mãos de apenas três empresas.

Vivemos em um mundo globalizado e estamos sujeitos a tudo. A grande maioria das vinte maiores empresas vinícolas argentinas são multinacionais. No Brasil, resta apenas a multinacional Chandon operando no nosso mercado, todas as outras deixaram o mercado. Qual a razão?

Talvez porque seja mais em conta produzir lá fora e exportar para o nosso mercado. Isto demonstra a necessidade de ser competitivo e como o seremos se não formarmos os nossos sucessores, já que a grande maioria das nossas empresas são familiares, até as cooperativas, pode-se dizer são familiares, afinal é uma união de muitas destas.

Com o Plano Visão 2025 engavetado, nosso futuro – aquele das famílias da Serra Gaúcha - não será dos melhores. Mas o Ibravin parece ter entendido que se faz necessário atuar sobre as empresas e famílias, profissionalizando-as, antes de poder por em prática o plano estratégico.

É preciso entender que há conflito entre os interesses das famílias e aqueles das empresas e isto pode e deve ser trabalhado. Para tanto, o Ibravin fez uma parceria com a Fundação Dom Cabral, uma das melhores do mundo, é a 16ª melhor escola de negócios do mundo pelo ranking 2008 do renomado jornal inglês Financial Times.

A Fundação Dom Cabral tem parceria com escolas similares em todo o mundo e, em especial modo para o nosso caso, com uma escola francesa, quem sabe não encontraríamos aqui algumas explicações pelo fato de vinícolas francesas serem centenárias.

É uma excelente oportunidade para as nossas cantinas buscarem soluções para os seus problemas, conflitos e melhor se prepararem para o futuro. Infelizmente, nem 20 empresas, entre as mais de 700 existentes, participaram das reuniões promovidas pelo Ibravin e a Fundação Dom Cabral.

Pai Patrão! Não espere os 90 anos para chamar o seu sucessor de 60 anos para assumir o comando da empresa. Comece a pensar agora, antes que seja tarde demais. Filhos de Patrão! Não fiquem parados, comecem a pensar também

Werner Schumacher
Economista

PS: NÃO SELO FISCAL QUE AJUDE CONTRA ESTA REALIDADE.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Cotação divina do dólar seria R$ 2,60

Por Werner Schumacher - Economista

Só um milagre elevaria a cotação do dólar para R$ 2,60 e assim salvaria boa parte da indústria nacional que está sufocada com a atual cotação da moeda norte-americana, pois não consegue por esta razão ser competitiva globalmente. Mas como um milagre só ocorre por ação divina, resta apenas aos nossos industriais rezar.

Na mitologia econômica tínhamos apenas o Deus Mercado, já que este determina tudo. Atua como o Deus das religiões, ou seja, interfere nas nossas vidas sem ser visto. Sabemos que existe, mas não podemos provar e acreditamos piamente Nele. Há alguns ateus, mas estes são a minoria.

É da natureza humana precisar de heróis e deuses, daí a forte presença da mitologia econômica atualmente na nossa sociedade.

Mas o Deus Mercado está perdendo forças, vem demonstrando ser extremamente injusto socialmente e a mitologia econômica está tomando os rumos daquela grega. Um dos principais pregadores do novo Deus Banco é Lloyd Blankfein, o presidente do banco Goldman Sachs, que ao ser criticado em função dos altos bônus pagos a executivos, em entrevista ao jornal londrino “Sunday Times”, disse que os bancos têm uma “proposta social” e estão fazendo “o trabalho de Deus”.

Lloyd Blankfein ainda acrescentou que os grandes lucros e, consequentemente, os altos bônus distribuídos a executivos, sinalizam que a economia mundial está se recuperando e que ajudamos empresas a crescerem. Elas crescem e criam riqueza. Isso, em troca, permite que as pessoas tenham empregos e criem mais crescimento e riqueza. Temos uma proposta social — afirmou.

Isto está provocando uma Guerra Divina entre aqueles que desejam um Real forte, hoje defendido pelo Deus Mercado, pois Este manda investir maciçamente no Brasil, finalmente, chegou à hora do país do futuro. Por outro lado, o Deus Banco, representado pelo Goldman Sachs diz que a cotação do dólar de equilíbrio para o Brasil deveria ser R$ 2,60, enchendo de esperança os produtores e exportadores brasileiros por este apoio divino.

Até voltarmos ao monoteísmo econômico, com apenas um Deus e justo socialmente, muitos outros deuses irão surgir, como o Deus Consumo, filho do Deus Mercado, portanto, guerras sangrentas serão travadas em virtude da forte adoração da nossa civilização ao material e ao excesso de individualismo.

Como essas guerras são de ordem divina, deixemos aos Deuses resolvê-las.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A realidade de algumas famílias do Vale dos Vinhedos

A reforma agrária, via divisão familiar, também se deu no Vale dos Vinhedos. Outrora, quando o Vale ainda não era Vale, muitas famílias acabaram dividindo suas terras por questões de herança e com isto as propriedades foram diminuindo, consequentemente, as áreas com vinhedos.

Esta é uma das razões pelas quais muitas das famílias não só do Vale, mas de toda a região, possuem em média 2 hectares de vinhedos por propriedade. Muitas das quais tinham duas ou três colônias e nestas dimensões a agricultura familiar dependente da monocultura da uva era viável.

Bastante comuns são os casos de famílias que não conseguem mais viver da uva, fazendo com que seus filhos e esposas acabam por trabalhar na cidade ou em fábricas próximas as suas terras, quando não, alguns optam por trabalhar em vizinhos que não passaram ainda pela reforma agrária hereditária ou por terem adquirido ao longo dos anos área maior do que lhes coube na imigração.

Próximo a minha casa há famílias que dificilmente seguirão com a produção de uvas. Os homens estão envelhecendo e próximos da aposentadoria, portanto, o que ganharão sem trabalhar será suficiente para sobreviver sem o árduo trabalho de cuidar das videiras. Suas esposas já trabalham na cidade e seus filhos não querem saber do parreiral.

Alguns ainda precisam ajudar na manutenção da mãe, que mora na cidade na casa de uma irmã e com isto a renda da produção de uva em área tão pequena não é mais interessante.

Os próximos 10 anos serão cruciais para estas famílias e, provavelmente, passaremos por um período de dificuldade de oferta de uva, que será suprida por matéria-prima vinda de outras regiões do Estado ou até mesmo de fora. Como sabemos, a mecanização em nossa região é difícil e o preço da terra inviabiliza a sua utilização para a produção da fruta.

Dificilmente estas propriedades continuarão com a sua vocação vitícola, pois em sua maioria serão transformadas em sítios, pousadas ou qualquer outro empreendimento voltado para o turismo. Apenas as famílias com áreas maiores e/ou proprietárias de uma pequena vinícola conseguirão sobreviver, consequentemente, o Vale dos Vinhedos perderá e muito na sua paisagem rural.

Infelizmente, as lideranças do Vale dos Vinhedos não conseguem visualizar esta futura realidade e por esta razão são as maiores culpadas pela quantidade enorme de propriedades a venda, sujeitas a formação de loteamentos, sítios, etc.

A ilha de Páscoa está com um programa de contenção de visita de turistas e da imigração de pessoas do continente. Ela está mais ou menos eqüidistante de qualquer continente em torno de 4.000 km. Quando foi descoberta no Século XVI por holandeses já estava em vias de destruição. A ilha de Páscoa é um exemplo para o mundo em relação a questão ambiental. Seus habitantes não tinham para onde ir: como viajar 4.000 km a remo? A terra, não sendo cuidada, restará apenas buscar outros planetas, ainda impossível.

As empresas do Vale dos Vinhedos podem buscar outras áreas para produzir a uva que precisam, mas será um engodo, ou seja, vinho do Vale feito com uvas fora do Vale e o desenvolvimento que deveria ter sido em prol da comunidade, se deu apenas para uma meia dúzia de 2 ou 3.

Triste realidade, a da agricultura familiar da Serra Gaúcha. Pior, prá nada servirá a almejada Denominação de Origem do Vale dos Vinhedos, pois será novamente privilégio de 2 ou 3.