sexta-feira, 4 de setembro de 2009

TRÊS FILHOS DA MESMA MÃE

Por ordem cronológica: o Presídio nos Caminhos de Pedra, a tentativa de demolição do COMPAHC e a aprovação de loteamento no Vale dos Vinhedos são três filhos da mesma mãe. Mas quem é essa mãezona que dá à luz a esses três monstrengos? É a especulação imobiliária.
Esta senhora sempre deu as cartas em Bento Gonçalves. Que o digam os inúmeros planejamentos falidos que ousaram pensar o coletivo acima do particular e que nunca conseguiram fôlego para vingar. Ela sempre teve tentáculos no poder executivo e legislativo. Nos dias atuais pelo fato de ter-lhem sido amputados alguns tentáculos em órgãos influentes do executivo ela está cada vez mais furiosa e voraz fazendo da Câmara de Vereadores a sua trincheira privilegiada...

Esta paisagem pode desaparecer


No dia 30 de junho de 2009 foi convocada uma reunião na Câmara de Vereadores para estraçalhar e humilhar diante das autoridades estaduais de segurança e da imprensa a postura técnica do IPURB que já devolveu por três vezes o Estudo de Impacto de Vizinhança que liberaria a construção do Presídio. Um único representante dos Caminhos de Pedra foi convidado para em 5 min tentar defender o que toda uma comunidade construiu com grande sacrifício, transformando-se num Roteiro Turístico consagrado em todo o país e no exterior. Não interessa nada que uma lei estadual 13177/09, sancionada pela atual Governadora declare os Caminhos de Pedra patrimônio histórico e cultural do RS. O presídio tem que ser lá... Não tem outras alternativas. Não tem conversa... As posturas autoritárias que tem caracterizado a atual legislatura.

Este prédio virtual à direita é o presídio à construir no Caminhos de Pedra


Dia 17/08, coincidentemente dia do patrimônio histórico, a Câmara se reúne para aprovar em regime de urgência um projeto de lei assinado por 9 Vereadores. Objetivo: Retirar o caráter deliberativo do COMPAHC e mudar totalmente a sua composição retirando dele todos os órgãos e entidades que representam o segmento histórico-cultural e, pasmem, substituindo-os por órgãos e entidades ligados ao segmento financeiro e da construção civil. As poucas conquistas do conselho nos poucos meses em que foi deliberativo foram o suficiente para acirrar os ânimos de modo a exigir na prática sua extinção. Uma mobilização rápida das entidades da sociedade civil, envolvendo a imprensa fez com que o próprio autor do projeto pedisse vistas do mesmo. Mas a qualquer momento, num vapt-vupt pode ser posto em votação novamente... O projeto é tão escabroso que o Ministério Público já abriu inquérito.

Ibama! Esta mata nativa será preservada?

Uma semana depois o fato se repete com um projeto de lei arquivado ainda pela legislatura anterior. Em menos de uma semana o projeto é desarquivado e votado em regime de urgência. Num piscar de olhos o Vale dos Vinhedos ficou menor e o mesmo poderá ter uns 20ha de parreirais a menos e, detalhe, substituídos pela bela paisagem de um loteamento de alta densidade com até prédios de 10 andares. Mais uma vez a sociedade civil se mobiliza e tenta conseguir um veto do prefeito que, provavelmente será derrubado em alguma fortuita sessão futura da Câmara.

A urbanização avança como as lavas de um vulcão sobre a Cascata dos Amores


O que se pode concluir de todas essas barbaridades? Que o poder econômico é que sempre fala mais alto, cega o bom senso e aguça o apetite da maioria dos nossos legisladores. O que se pode esperar? Que a opinião pública acorde e pressione como nunca para que nossa cidade não seja apenas fonte de lucro para alguns mas local bom de se viver e morar para todos, incluindo nossos visitantes. O que é bom para os moradores é bom para os visitantes também... Numa palavra: qualidade de vida.

Só prá refrescar a memória! O que foi mesmo que causou a crise mundial? Não foi a especulação imobiliária desenfreada que conseguiu inflar tanto o valor dos imóveis que se tornaram primeiro impagáveis e, de repente, caindo na real, passaram a não valer mais nada? Parece-me claro que é este o caminho que nossa cidade está tomando se não souber impor limites à cobiça desenfreada da especulação imobiliária que faz de tudo, compra tudo para transformar em barrancos, barracos, apartamentos de pombalescos e condomínios de luxo. Empreendimentos que, logo ali, nas cidades vizinhas custam metade do preço. Ou então... Enquanto supervalorizam-se áreas eucaliptos, capim e capoeiras na zona urbana já com toda infraestrutura, compram-se por preços mais baratinhos áreas com parreirais e potencial agrícola que servem para acomodar as classes populares que são sempre empurradas para as periferias.

Te espreme Vale dos Vinhedos, Vale das Antas e Caminhos de Pedra... Vamos empurrar as classes populares morro abaixo enquanto os especuladores faturam alto com capim e capoeira crescendo nas áreas centrais, cada vez mais valiosas (estudo do IPURB dá conta que Bento tem 10.000 lotes não edificados na área urbana). Algo está errado... Algo tem que se feito e é prá ontem. Mãos à obra... antes que essa “bondosa” mãe acuada dê a luz a mais filhotes.

Texto e Fotos: Nestor Foresti - Associação Caminhos de Pedra

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