terça-feira, 8 de setembro de 2009

Afinal, quando teremos dados corretos?

As informações sobre a cadeia produtiva de uva, vinhos e derivados são as mais diversas possíveis. Em um país como o Brasil não é de se estranhar, pois a carência de dados é algo impressionante. Para dar um exemplo: alguns dizem que há no Rio Grande do Sul 1.190 vinícolas e 20 mil famílias que cultivam uvas em 90 mil hectares, enquanto para outros são 725 vinícolas e 15 mil famílias com 35 mil hectares de vinhedos.

Em seu site, o Ministério da Agricultura informa que a área plantada, em 2006, foi de 88 mil hectares, com produção de 1,22 milhões de toneladas, sendo responsável pela geração de 140 mil empregos somente no cultivo da uva. O PIB aproximado do setor é de 3 bilhões de dólares e o Rio Grande do Sul é responsável por cerca de 95% da produção nacional de vinhos, sendo que possui 54% da área total plantada do país (seriam 47,5 mil ha), seguido por São Paulo com 21%. Os maiores produtores de uva são: Rio Grande do Sul, São Paulo, Pernambuco e Paraná.

Enquanto não sabemos ao certo o número de estabelecimentos, famílias, hectares e faturamento, pois não há um estudo sócio econômico sobre o setor, vamos nos basear no Cadastro Vitícola RS de 2005 a 2007.

Em 2007 foram colhidas no Estado 628.496 toneladas de uva em 38.505 hectares de 15.384 propriedades, portanto, uma média de 16,32 toneladas por hectare e 40,85 toneladas por propriedade. Podendo-se deduzir que a média de vinhedos por propriedade é de 2,5 hectares e a renda média estimada de cada uma, com base no preço mínimo da uva a R$ 0,46, é de R$ 18.791,00.

Ressaltamos que, por não haver um estudo sócio-econômico destas mais de 15 mil famílias, podemos apenas estimar e isto nos leva a crer a existência de um grave problema social nestas propriedades, ao se considerar cada família com quatro indivíduos. É bem provável que o Plano Estratégico Visão 2025 tenha apontado isto e indicado caminhos para a viabilidade econômica e social das mesmas, mas está engavetado como os atos secretos do Senado.

O maior produtor de uva do Estado é Bento Gonçalves com 1.816 propriedades que produzem 117.118 toneladas de uva em 5.920 hectares de vinhedos, resultando numa média de 19,78 t/ha. Outro dado interessante é o fato de que estas propriedades somam 22.430 hectares, portanto, os vinhedos ocupam apenas 26,4% da área, consequentemente, haveria condições de aumentar a área plantada, não fossem as exigências do Ibama.

Havia no Estado em 2007 38.505 hectares de vinhedos e 70% destes estão em apenas 8 municípios, conforme podemos ver na tabela abaixo:

Bento Gonçalves tem 1.816 Propriedades que ocupam uma área de 22.430 ha, ocupados 5.920 ha com vinhedos, ocupando 26,39% da área, a produção é de 117.118 t, uma média de 19,78 t/ha.
Flores da Cunha tem 1.492 Propriedades que ocupam uma área de 18.121 ha, ocupados 4.716 ha com vinhedos, ocupando 25,02% da área, a produção é de 85.613 t, uma média de 18,15 t/ha.
Farroupilha tem 1.365 Propriedades que ocupam uma área de 19.660 ha, ocupados 3.892 ha com vinhedos, ocupando 19,79% da área, a produção é de 70.775 t, uma média de 18,18 t/ha.
Caxias do Sul tem 1.806 Propriedades que ocupam uma área de 26.148 ha, ocupados 3.942 ha com vinhedos, ocupando 15,07% da área, a produção é de 63.378 t, uma média de 16,08 t/ha.
Garibaldi tem 1.213 Propriedades que ocupam uma área de 14.119 ha, ocupados 3.178 ha com vinhedos, ocupando 22,51% da área, a produção é de 56.977 t, uma média de 17,93 t/ha.
Monte Belo Sul 606 Propriedades que ocupam uma área de 6.281 ha, ocupados 2.241 ha com vinhedos, ocupando 35,68% da área, a produção é de 40.048 t, uma média de 17,87 t/ha
Antônio Prado 735 Propriedades que ocupam uma área de 16.233 ha, ocupados 1.319 ha com vinhedos, ocupando 8,12% da área, a produção é de 21.612 t, uma média de 16,38 t/ha.
São Marcos 619 Propriedades que ocupam uma área de 8.121 ha, ocupados 991 ha com vinhedos, ocupando 12,20% da área, a produção é de 17.463 t, uma média de 17,62 t/ha.
Total RS 15.384 Propriedades que ocupam uma área de 292.075 ha, ocupados 38.505 ha com vinhedos, ocupando 13,18% da área, a produção é de 628.496 t, uma média de 16,32 t/ha.

De 1997 a 2007, a área de vinhedos passou de 25.322 há para 38.505, ou seja, um aumento de 52%. Isto foi planejado?

O destino desta produção foi o seguinte:
Uva vendida pelas famílias para as cantinas 524.658,47 t
Uva produzida pela própria cantina 35.713,57 t
Vinificação da própria cantina rural 15.489,08 t
Vinificação para consumo próprio 9.301,24 t
Venda para consumo in natura 33.748,67 t
Venda para Elaboração de doces e geléias 3.113,52 t
Venda para Elaboração de vinho caseiro 5.815,67 t
Consumo Próprio (mesa,doces, etc) 655,82 t

Destes dados podemos que a produção de vinho caseiro é significativa e que muitos destes produtores estão na informalidade, devido às dificuldades em obter o cadastramento pelas exigências burocráticas e ambientais.

A vinificação para consumo próprio soma 9,3 milhões de quilos e isto significa uma produção de pelo menos 5,6 milhões de litros de vinhos. Considerando 15.384 famílias produtoras de uva, cada uma delas consome 1 litro de vinho por dia. Devemos somar a isto às 5,8 t de uva comprada por pessoas que produzem seu vinho em casa, perfazendo um volume aproximado de 3,5 milhões de litros de vinho.

Enfim, se estes dados estão corretos, quase 10 milhões de litros de vinho são produzidos no Estado para consumo caseiro.

Este é o ponto que gostaríamos de chegar, pois as exigências para registrar um estabelecimento vinícola são enormes, tais como: pé direito, sala para engarrafamento azulejada, recebimento de uva separado, em alguns tipos de casas o porão de pedra, típico da região, não pode ser usado. Tratamento de efluentes, quando outras agroindústrias com até 200 m2 estão isentas.

Não se está na clandestinidade por desejo.

No Napa Valley (Califórnia), principal região produtora de vinhos dos Estados Unidos, há vinícolas de madeira. Telmo Rodríguez, que produz vinhos em toda a Espanha, recentemente, com um sócio, abriu uma pequena e admirável vinícola, feita de barro e de tábuas de velhos barris, na aldeia de Lanciego, a leste de Haro. “Quero fazer um vinho que possa mostrar uma aldeia”.

Lá pode tudo, aqui nada pode.

Pode-se deduzir a partir do aumento da área plantada em 50% nos últimos 10 anos que o volume de vinho caseiro produzido deve ter apresentado o mesmo comportamento. Isto é fruto das características das nossas pequenas propriedades, fazendo com que os camponeses vendam parte do seu vinho de modo a sobreviver com maior dignidade.

Outro problema do setor é a falta de um sistema integrado de produção. Manda-se plantar sem garantia de compra da produção e em anos como os que hoje vivemos, arranca-se vinhedos.

Falta ao setor maturidade, profissionalismo e responsabilidade.

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