quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Vinho, um mercado que não consegue ser eficiente
Nem sempre na eficiência há também justiça e equidade.
Na realidade, esta análise é feita apenas do ponto de vista da oferta e da procura, ou seja, do mercado e em relação a aqueles ganham ou perdem ora produtores, ora consumidores.
Sobre este aspecto não aparece haver no mercado brasileiro de vinhos uma falha de mercado, pois vendedores e consumidores parecem estar satisfeitos com a oferta e a demanda de produtos, sob o ponto de vista exclusivamente de mercado.
No entanto, diversos são os atores que atuam neste mercado e, aqueles verde e amarelo, parecem ser os perdedores. Isto seria por ineficiência do mercado ou por parte de seus atores?
Parte dos vendedores produtores de vinho parece estar perdendo, pois solicitaram a intervenção do Governo e isto só deve ocorrer quando há falha de mercado, portanto, é um reconhecimento que estão perdendo, não vindo ao caso agora se por incompetência ou não, pela solicitação de adoção do sistema de controle fiscal através do uso de selo no fechamento da garrafa.
Os prejudicados, alegam que importações “ilegais” são realizadas em nosso país e a entrada pela extensa área de fronteira do país, via descaminho, de montante razoável de vinhos a ponto de ambos problemas provocarem uma concorrência desleal e predatória e ameaçadora para a indústria nacional. Diga-se, de passagem, até hoje não desempregou ninguém.
Os vendedores que parecem estar ganhando, os importadores, são contrários a esta adoção, que representaria mais custos para eles, consequentemente, pela ótica capitalista, menos lucro e, assim, através de boa parte dos formadores de opinião estão jogando o consumidor contra o produtor brasileiro, pois este custo será repassado a quem?
Vários são os formadores de opinião que já se manifestaram a respeito e, por efeito cascata, uma torrente crescente de consumidores vem se manifestando contrariadamente ao selo e, por tabela, ao vinho brasileiro, leia-se produtores.
O tiro vai sair pela culatra.
Os grandes produtores estrangeiros de vinho não estão nem aí para o problema, afinal, o negócio deles é vender e, considerando o promissor mercado brasileiro - mais de 180 milhões de habitantes - farão o que for necessário para consolidarem a sua presença aqui, custe o que custar.
Eles também estão se aproveitando de estoques elevados e subsídios governamentais, mandando verdadeiras porcarias, ao abrigo da lei brasileira. Há produtos produzidos exclusivamente para o mercado brasileiro. Contam ainda, com uma mãozinha nossa, a política cambial suicida.
Por outro lado, há a intervenção do Governo no mercado pela prática de preços mínimos e algumas empresas são obrigadas a se valer deste, pois dependem de financiamentos do Governo para poder honrar seus compromissos com seus associados, o que os torna menos competitivos no mercado.
Outra parcela de vendedores produtores se aproveita da situação e praticam preços muito abaixo daquele determinado pelo Governo, as vezes por menos da metade do preço tabelado, hoje R$ 0,46/kg de uva comum. Aumentando ainda a concorrência predatória.
Para completar, a legislação brasileira permite a fabricação de verdadeiros absurdos, como são as bebidas a base de vinho: sangria, coquetel, cooler, etc., que muitas vezes confundem o consumidor levando-os a acreditar que estão bebendo vinho, mas o que mais contêm é açúcar e álcool de cana com corantes e aromatizantes.
Não há em si uma falha de mercado, mas a constatação de muita injustiça e a falta de equidade é enorme, principalmente, quando sabemos que o maior prejudicado é o produtor de uva, sem a qual não se faz vinho, daí a expansão de loteamentos sobre o meio rural da Serra Gaúcha, entre outras perdas lastimáveis.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Afinal, quando teremos dados corretos?
Em seu site, o Ministério da Agricultura informa que a área plantada, em 2006, foi de 88 mil hectares, com produção de 1,22 milhões de toneladas, sendo responsável pela geração de 140 mil empregos somente no cultivo da uva. O PIB aproximado do setor é de 3 bilhões de dólares e o Rio Grande do Sul é responsável por cerca de 95% da produção nacional de vinhos, sendo que possui 54% da área total plantada do país (seriam 47,5 mil ha), seguido por São Paulo com 21%. Os maiores produtores de uva são: Rio Grande do Sul, São Paulo, Pernambuco e Paraná.
Enquanto não sabemos ao certo o número de estabelecimentos, famílias, hectares e faturamento, pois não há um estudo sócio econômico sobre o setor, vamos nos basear no Cadastro Vitícola RS de 2005 a 2007.
Em 2007 foram colhidas no Estado 628.496 toneladas de uva em 38.505 hectares de 15.384 propriedades, portanto, uma média de 16,32 toneladas por hectare e 40,85 toneladas por propriedade. Podendo-se deduzir que a média de vinhedos por propriedade é de 2,5 hectares e a renda média estimada de cada uma, com base no preço mínimo da uva a R$ 0,46, é de R$ 18.791,00.
Ressaltamos que, por não haver um estudo sócio-econômico destas mais de 15 mil famílias, podemos apenas estimar e isto nos leva a crer a existência de um grave problema social nestas propriedades, ao se considerar cada família com quatro indivíduos. É bem provável que o Plano Estratégico Visão 2025 tenha apontado isto e indicado caminhos para a viabilidade econômica e social das mesmas, mas está engavetado como os atos secretos do Senado.
O maior produtor de uva do Estado é Bento Gonçalves com 1.816 propriedades que produzem 117.118 toneladas de uva em 5.920 hectares de vinhedos, resultando numa média de 19,78 t/ha. Outro dado interessante é o fato de que estas propriedades somam 22.430 hectares, portanto, os vinhedos ocupam apenas 26,4% da área, consequentemente, haveria condições de aumentar a área plantada, não fossem as exigências do Ibama.
Havia no Estado em 2007 38.505 hectares de vinhedos e 70% destes estão em apenas 8 municípios, conforme podemos ver na tabela abaixo:
Flores da Cunha tem 1.492 Propriedades que ocupam uma área de 18.121 ha, ocupados 4.716 ha com vinhedos, ocupando 25,02% da área, a produção é de 85.613 t, uma média de 18,15 t/ha.
Farroupilha tem 1.365 Propriedades que ocupam uma área de 19.660 ha, ocupados 3.892 ha com vinhedos, ocupando 19,79% da área, a produção é de 70.775 t, uma média de 18,18 t/ha.
Caxias do Sul tem 1.806 Propriedades que ocupam uma área de 26.148 ha, ocupados 3.942 ha com vinhedos, ocupando 15,07% da área, a produção é de 63.378 t, uma média de 16,08 t/ha.
Garibaldi tem 1.213 Propriedades que ocupam uma área de 14.119 ha, ocupados 3.178 ha com vinhedos, ocupando 22,51% da área, a produção é de 56.977 t, uma média de 17,93 t/ha.
Monte Belo Sul 606 Propriedades que ocupam uma área de 6.281 ha, ocupados 2.241 ha com vinhedos, ocupando 35,68% da área, a produção é de 40.048 t, uma média de 17,87 t/ha
Antônio Prado 735 Propriedades que ocupam uma área de 16.233 ha, ocupados 1.319 ha com vinhedos, ocupando 8,12% da área, a produção é de 21.612 t, uma média de 16,38 t/ha.
São Marcos 619 Propriedades que ocupam uma área de 8.121 ha, ocupados 991 ha com vinhedos, ocupando 12,20% da área, a produção é de 17.463 t, uma média de 17,62 t/ha.
Total RS 15.384 Propriedades que ocupam uma área de 292.075 ha, ocupados 38.505 ha com vinhedos, ocupando 13,18% da área, a produção é de 628.496 t, uma média de 16,32 t/ha.
O destino desta produção foi o seguinte:
Uva vendida pelas famílias para as cantinas 524.658,47 t
Uva produzida pela própria cantina 35.713,57 t
Vinificação da própria cantina rural 15.489,08 t
Vinificação para consumo próprio 9.301,24 t
Venda para consumo in natura 33.748,67 t
Venda para Elaboração de doces e geléias 3.113,52 t
Venda para Elaboração de vinho caseiro 5.815,67 t
Consumo Próprio (mesa,doces, etc) 655,82 t
Destes dados podemos que a produção de vinho caseiro é significativa e que muitos destes produtores estão na informalidade, devido às dificuldades em obter o cadastramento pelas exigências burocráticas e ambientais.
A vinificação para consumo próprio soma 9,3 milhões de quilos e isto significa uma produção de pelo menos 5,6 milhões de litros de vinhos. Considerando 15.384 famílias produtoras de uva, cada uma delas consome 1 litro de vinho por dia. Devemos somar a isto às 5,8 t de uva comprada por pessoas que produzem seu vinho em casa, perfazendo um volume aproximado de 3,5 milhões de litros de vinho.
Enfim, se estes dados estão corretos, quase 10 milhões de litros de vinho são produzidos no Estado para consumo caseiro.
Este é o ponto que gostaríamos de chegar, pois as exigências para registrar um estabelecimento vinícola são enormes, tais como: pé direito, sala para engarrafamento azulejada, recebimento de uva separado, em alguns tipos de casas o porão de pedra, típico da região, não pode ser usado. Tratamento de efluentes, quando outras agroindústrias com até 200 m2 estão isentas.
Não se está na clandestinidade por desejo.
No Napa Valley (Califórnia), principal região produtora de vinhos dos Estados Unidos, há vinícolas de madeira. Telmo Rodríguez, que produz vinhos em toda a Espanha, recentemente, com um sócio, abriu uma pequena e admirável vinícola, feita de barro e de tábuas de velhos barris, na aldeia de Lanciego, a leste de Haro. “Quero fazer um vinho que possa mostrar uma aldeia”.
Lá pode tudo, aqui nada pode.
Pode-se deduzir a partir do aumento da área plantada em 50% nos últimos 10 anos que o volume de vinho caseiro produzido deve ter apresentado o mesmo comportamento. Isto é fruto das características das nossas pequenas propriedades, fazendo com que os camponeses vendam parte do seu vinho de modo a sobreviver com maior dignidade.
Outro problema do setor é a falta de um sistema integrado de produção. Manda-se plantar sem garantia de compra da produção e em anos como os que hoje vivemos, arranca-se vinhedos.
Falta ao setor maturidade, profissionalismo e responsabilidade.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
TRÊS FILHOS DA MESMA MÃE
Esta senhora sempre deu as cartas em Bento Gonçalves. Que o digam os inúmeros planejamentos falidos que ousaram pensar o coletivo acima do particular e que nunca conseguiram fôlego para vingar. Ela sempre teve tentáculos no poder executivo e legislativo. Nos dias atuais pelo fato de ter-lhem sido amputados alguns tentáculos em órgãos influentes do executivo ela está cada vez mais furiosa e voraz fazendo da Câmara de Vereadores a sua trincheira privilegiada...
No dia 30 de junho de 2009 foi convocada uma reunião na Câmara de Vereadores para estraçalhar e humilhar diante das autoridades estaduais de segurança e da imprensa a postura técnica do IPURB que já devolveu por três vezes o Estudo de Impacto de Vizinhança que liberaria a construção do Presídio. Um único representante dos Caminhos de Pedra foi convidado para em 5 min tentar defender o que toda uma comunidade construiu com grande sacrifício, transformando-se num Roteiro Turístico consagrado em todo o país e no exterior. Não interessa nada que uma lei estadual 13177/09, sancionada pela atual Governadora declare os Caminhos de Pedra patrimônio histórico e cultural do RS. O presídio tem que ser lá... Não tem outras alternativas. Não tem conversa... As posturas autoritárias que tem caracterizado a atual legislatura.
Este prédio virtual à direita é o presídio à construir no Caminhos de Pedra
Dia 17/08, coincidentemente dia do patrimônio histórico, a Câmara se reúne para aprovar em regime de urgência um projeto de lei assinado por 9 Vereadores. Objetivo: Retirar o caráter deliberativo do COMPAHC e mudar totalmente a sua composição retirando dele todos os órgãos e entidades que representam o segmento histórico-cultural e, pasmem, substituindo-os por órgãos e entidades ligados ao segmento financeiro e da construção civil. As poucas conquistas do conselho nos poucos meses em que foi deliberativo foram o suficiente para acirrar os ânimos de modo a exigir na prática sua extinção. Uma mobilização rápida das entidades da sociedade civil, envolvendo a imprensa fez com que o próprio autor do projeto pedisse vistas do mesmo. Mas a qualquer momento, num vapt-vupt pode ser posto em votação novamente... O projeto é tão escabroso que o Ministério Público já abriu inquérito.
Ibama! Esta mata nativa será preservada?
Uma semana depois o fato se repete com um projeto de lei arquivado ainda pela legislatura anterior. Em menos de uma semana o projeto é desarquivado e votado em regime de urgência. Num piscar de olhos o Vale dos Vinhedos ficou menor e o mesmo poderá ter uns 20ha de parreirais a menos e, detalhe, substituídos pela bela paisagem de um loteamento de alta densidade com até prédios de 10 andares. Mais uma vez a sociedade civil se mobiliza e tenta conseguir um veto do prefeito que, provavelmente será derrubado em alguma fortuita sessão futura da Câmara.
A urbanização avança como as lavas de um vulcão sobre a Cascata dos Amores
O que se pode concluir de todas essas barbaridades? Que o poder econômico é que sempre fala mais alto, cega o bom senso e aguça o apetite da maioria dos nossos legisladores. O que se pode esperar? Que a opinião pública acorde e pressione como nunca para que nossa cidade não seja apenas fonte de lucro para alguns mas local bom de se viver e morar para todos, incluindo nossos visitantes. O que é bom para os moradores é bom para os visitantes também... Numa palavra: qualidade de vida.
Só prá refrescar a memória! O que foi mesmo que causou a crise mundial? Não foi a especulação imobiliária desenfreada que conseguiu inflar tanto o valor dos imóveis que se tornaram primeiro impagáveis e, de repente, caindo na real, passaram a não valer mais nada? Parece-me claro que é este o caminho que nossa cidade está tomando se não souber impor limites à cobiça desenfreada da especulação imobiliária que faz de tudo, compra tudo para transformar em barrancos, barracos, apartamentos de pombalescos e condomínios de luxo. Empreendimentos que, logo ali, nas cidades vizinhas custam metade do preço. Ou então... Enquanto supervalorizam-se áreas eucaliptos, capim e capoeiras na zona urbana já com toda infraestrutura, compram-se por preços mais baratinhos áreas com parreirais e potencial agrícola que servem para acomodar as classes populares que são sempre empurradas para as periferias.
Te espreme Vale dos Vinhedos, Vale das Antas e Caminhos de Pedra... Vamos empurrar as classes populares morro abaixo enquanto os especuladores faturam alto com capim e capoeira crescendo nas áreas centrais, cada vez mais valiosas (estudo do IPURB dá conta que Bento tem 10.000 lotes não edificados na área urbana). Algo está errado... Algo tem que se feito e é prá ontem. Mãos à obra... antes que essa “bondosa” mãe acuada dê a luz a mais filhotes.
Texto e Fotos: Nestor Foresti - Associação Caminhos de Pedra