sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Éramos “O” exemplo, agora...

...parece que estamos na contramão da história. No início do século passado muitos agricultores se uniram em cooperativas para escoar a sua produção de uva e elaborar o seu próprio vinho. A cooperativa Forqueta completou 100 anos em 2009 e junto com as demais detinham mais de 65% da produção de vinho do Estado, mas hoje não chegam a 25%.

O conceito de cooperativismo está hoje deturpado, não é mais sinônimo de união, quando um grupo social com o objetivo de desempenhar, em benefício comum, junta-se para exercer determinada atividade econômica, pelo menos é o que aparenta aqui na Serra Gaúcha, pois basta falar a palavra cooperativa e todos correm. Alguns agricultores chegam ao ponto de dizer que ainda estão associados à determinada cooperativa por causa do plano de saúde, pois está doente devido às aplicações de agrotóxico e com problemas musculares devido ao esforço repetitivo em suas atividades.

Com a “deterioração” do cooperativismo na nossa região, muitas oportunidades estão sendo perdidas. Dizem que uma empresa do Rio de Janeiro está se instalando no município de Flores da Cunha para produzir 10 milhões de litros de suco de uva integral. É sabido que o poder hoje está na mão de quem distribui o produto no mercado, ou como gostam de dizer modernamente, tem a logística, portanto, não basta produzir. Mas isto não impede de que em forma associativa se tenha tanta competência quanto qualquer grande fabricante, já que a distribuição está na mão dos atacadistas.

Esta empresa fluminense está vindo competir em um território e mercado dominado até há poucos anos praticamente pelas cooperativas.

Esta seria uma oportunidade excelente para a nossa agricultura familiar, que por falta de conhecimento não está atenta a estes movimentos e provavelmente pela ausência de entidades que apontem caminhos para ela.

Todos parecem esquecer que mais de 200 milhões de quilos de uva deixaram de ter colocação na indústria ao longo das últimas décadas pelas leis de regulamentação da fraude, ou seja, aprovaram o “conhaque” de gengibre, o “vermute” sem vinho, o “vinagre” com apenas 10% de origem vínica e, ultimamente, as sangrias, coquetéis, etc.

Como bem disse o amigo Rinaldo Dal Pizzol, até meados no século passado a elaboração de vinhos para consumo só era possível com uvas que apresentassem mais de 16 graus, as inferiores eram destinadas para destilação, base vermute ou vinagre. Aqui, portanto, está um forte golpe aplicado no produtor de uvas e, porque não dizer, na qualidade do nosso vinho, que passou a depender do açúcar de cana.

Os nordestinos parecem estar dando exemplo do novo cooperativismo para a agricultura familiar, basta ver as pequenas cooperativas que criaram para o beneficiamento da castanha de caju. Todos sabem que a fruta é abundante no nordeste, que dura no máximo 48 horas depois de colhida e o seu aproveitamento maior é mesmo a castanha. Milhares de quilos eram postos fora anualmente. Uma empresa do Ceará, inclusive, há muitos anos vem produzindo “vinho” de caju para compor bebidas mistas e fortificantes no lugar do verdadeiro vinho.

Pois bem, somente em 2004, foram produzidas 183 mil toneladas, gerando exportações apenas para a Europa equivalentes a US$ 186 milhões. A fim de aproveitar esse potencial brasileiro, a Fundação Banco do Brasil, o Sebrae, a Embrapa e a Telemar estão investindo no processo agroindustrial do caju, com o beneficiamento de castanhas e polpas. 400 produtores rurais reuniram-se para celebrar mais uma conquista no processo de beneficiamento e comercialização de castanha: a criação da central de exportação da Coopercaju - Cooperativa dos Beneficiadores Artesanais de Castanha-de-Caju do Rio Grande do Norte, que conta ainda com minifábricas de beneficiamento da castanha localizadas nos municípios de Caraúbas (Mirandas), Apodi (Córrego) e Portalegre.

Na ocasião da inauguração, o presidente da Coopercaju, Dedé Vaqueiro, fez uma animada saudação: “Nós, produtores, nunca devemos esquecer esse momento. Temos força de vontade e coragem de trabalhar. Além disso, fizemos boas parcerias com pessoas certas e órgãos respeitados em todo o Brasil”.

Parece que carecemos de um Dedé Vaqueiro por estas bandas.

Outro bom exemplo nordestino é a criação do consórcio – outra forma associativa - Asca- Associação Sertaneja de Caprinocultores. Sem recursos, a associação nasceu cheia de sonhos, mas nenhuma cabra. Era um grupo de criadores de caprinos que não tinha cabra para criar. A única capacitação era a participação de um curso de bovinocultura leiteira, no entanto, viram que no lugar de uma vaca é possível criar dez cabras e o que come uma vaca serve para alimentar dez cabras. Começaram a economizar e em um ano conseguiram comprar 140 cabras e cada criador recebeu os animais de acordo com o seu investimento. Então receberam orientação técnica para o manejo de caprinos pelo Sebrae, mas viram que havia certo preconceito em relação ao leite de cabra, criaram então o bode móvel, um carro que circula pelos municípios para divulgar o produto com a participação de um veterinário. O leite processado no laticínio é comercializado num único ponto de venda: o ponto do bode. Lá tem iogurte, doce de leite e queijos de vários tipos... Ao lado do ponto do bode, o novo investimento da associação: um laticínio maior e dentro dos padrões de higiene.

Existem muitos Romualdos no Nordeste. Jovens que deixam sua terra em busca de uma vida melhor. Mas a peça, encenada pelo Grupo Raízes nordestinas, surgiu pra divulgar uma história real de sucesso, o caso de um grupo de produtores rurais que investiu na criação de cabras. Romualdo volta ao sertão quando vê a possibilidade de viver da criação de cabras. Para os criadores do consórcio do bode, esta oportunidade pode trazer gente de volta e, principalmente, evitar que muitos saiam.
“Me chamam de Rogério da Cabra. Me orgulha porque é um animal tão resistente como o nordestino”, diz um criador.

Parece que carecemos também de um Rogério da Cabra por aqui e de um grupo teatral que mostre o quão importante e resistente é a nossa agricultura familiar para a região, por esta razão, a importância de evitar que muitos saiam do meio rural.

Não se deve fazer apologia ao passado, mas era comum na região a repartição da carne de um boi ou porco entre as famílias de uma comunidade, bem como, a colheita da uva era feita em mutirão, hoje, no entanto, é preciso contratar mão de obra externa, vindas de outros municípios.

No município de Alterosa, em Minas Gerais, que já teve mais de 500 hectares cultivados com arroz, hoje em torno de 100, é uma tradição de mais de 100 anos a formação de um mutirão para a colheita do grão. No final da tarde, após a lida na roça agricultores se reúnem para a colheita, desta vez, de um terreno dentro da cidade. De acordo com Antônio Gomes, de 78 anos, que aprendeu com o pai e o avô, é uma cultura que o agricultor lida com a safra de arroz de forma que deixa de ser apenas um trabalho braçal. Já o agricultor Adão Cabral diz: “É improvisado. A gente vai cantando conforme a gente vai recordando e achando bonitas as músicas. A gente vai lembrando e fazendo versos”. No final do serviço, a sensação é de dever cumprido. Em gratidão, o dono da lavoura oferece um lanche para toda turma. Tudo acaba em confraternização. “Não é serviço. É só uma reunião para marcar presença das coisas antigas. É uma tradição que não pode acabar de jeito nenhum”, falou o agricultor Joaquim Cândido Ribeiro.

Em uma região cuja vocação é o turismo, mutirões com breves filós ao final do dia poderiam ser uma bela alternativa para aqueles que atuam no enoturismo.

A situação da nossa agricultura familiar é extremamente complexa, tais como: envelhecimento e masculinização da população rural, dificuldade de escoamento da produção com preços justos, falta de boas estradas, etc. Não serão exemplos como estes que resolverão os nossos problemas, mas sem dúvida são alternativas capazes de dar sustentabilidade e viabilidade as nossas pequenas propriedades rurais.

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