sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Liberado empréstimo para produtor familiar

CMN aprova medida de apoio para atingidos por problemas climáticos

Agricultores familiares que tiveram prejuízos nas propriedades poderão tomar novos empréstimos, mesmo se estiverem endividados. O anúncio foi feito ontem pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).Produtores que perderam o patrimônio poderão ter auxílio do Pronaf e do Pronaf Mais Alimentos. A medida deve ajudar na reconstrução de propriedades prejudicadas pelo clima.– Não se trata de renegociação – disse o secretário adjunto de política econômica do Ministério da Fazenda, Gilson Bittencourt.– Nos últimos meses, em razão dos problemas climáticos, tem ocorrido demanda de negociação que, além de afetar produção, afeta o patrimônio usado para a produção – acrescentou.A avaliação é a de que, se o produtor não tiver condições de prosseguir com seu trabalho, haverá uma dificuldade maior ainda de honrar sua dívida.O conselho também aprovou medidas para cooperativas e para quem produz uvas. Os produtores reivindicavam alta do preço mínimo da uva, mas o governo manteve o valor em R$ 0,46 o quilo e decidiu-se que, a partir desta safra, a renovação será automática.Foram alteradas as condições do Programa de Capitalização de Cooperativas Agropecuárias. O limite de crédito por associado sobe de R$ 25 mil para R$ 40 mil. Além disso, vai ser permitido reservar até R$ 2 bilhões para capital de giro para aplicação direta nas cooperativas.– Até então, o programa tinha uma trava: ou financiava o produtor ou repassava para a cooperativa. Agora estamos tirando essa trava: tanto faz se o recurso vai via produtor ou cooperativa – explicou Bittencourt.De acordo com o secretário, a mudança foi necessária porque quase todo o recurso contratado até agora está no foco cooperativo:– Temos R$ 850 milhões até agora para cooperativas e, para o produtor, é quase nada. É insignificante. Por isso, estamos tirando a trava.Em relação ao saldo de R$ 2 bilhões, explicou que, anteriormente, desse recurso que era destinado ao programa, apenas R$ 1 bilhão poderia ser aplicado diretamente nas cooperativas. O restante só poderia ser destinado aos associados para que estes integralizassem na cooperativa.

Por que é importante
- Com a medida, agricultores familiares que sofrem impedimento de obter uma segunda linha de crédito porque não são capazes de honrar a primeira a contento poderão, a partir de hoje, obter o novo financiamento, desde que seu patrimônio esteja comprometido a ponto de emperrar a continuidade a suas atividades.


Fonte: ZERO HORA de 26/02/2010

WineCode - O SELO DIGITAL

Em uma era já mais do que digital, líderes e políticos da cadeia produtiva uva e vinho insistem na implantação do selo de controle fiscal para vinhos. Isto é um retrocesso que não combina com inovação e diariamente as empresas devem se adaptar a modernização, tais como nota fiscal eletrônica, boas práticas de fabricação, equipamentos modernos, aço inox, IT, etc.
Quem sabe deveríamos voltar a datilografar as notas fiscais.

O selo fiscal é um processo “analógico” e na grande maioria das empresas deverá ser feito manualmente, com custos que dificilmente serão ressarcidos com o pretendido aumento de faturamento que estes líderes alegam obter pela coibição do descaminho (contrabando), falsificação e sonegação.



WineCode é uma alternativa moderna para o setor e digital, com o simples enquadramento de um selo ou código no rótulo da garrafa através da câmara do celular imediatamente é acessado o site do produtor.

Tudo isto em tempo real, no site do produtor será possível obter informações sobre o vinho, a empresa, localização por GPS, informações turísticas, etc., ou seja, um serviço completo de informações que atestarão à autenticidade do produto.

Para maiores detalhes, visite o site http://www.winecode.it/ e veja como este sistema pode contribuir enormemente para informar o consumidor e, inclusive, ser utilizado como sistema de rastreabilidade, com este propósito, aliás, vem sendo amplamente usado na Itália na área do eno-agro-turismo.

WineCode é ENOCULTURA ao alcance da sua mão.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A conta que talvez o setor não contou

Acreditamos seja consenso de todos que a aplicação do selo de controle fiscal para vinhos acarretará em aumento de custo. A Uvifam calcula que este custo poderá chegar ou superar o valor do preço mínimo da uva para as pequenas empresas e mesmo as empresas que tenham condições de automatizar a linha de produção deverão ter um gasto no mínimo de R$ 0,20 por unidade.

Quanto o setor deverá faturar para cobrir esta despesa?

Será que o incremento de faturamento do setor - proporcionado pela coibição do descaminho, sonegação e falsificação - será suficiente?

Como diz a propaganda, o mundo é de perguntas e não de respostas.

Mas vamos tentar responder e para isto é preciso estimar que haja a possibilidade de se selar 100 milhões de unidades de vinho nacional – entre garrafa, Pet, garrafão e bag-in-box - e que o custo médio da colocação do selo fiscal seja então de R$ 0,20 por unidade, isto representará uma despesa de R$ 20 milhões para o setor, excluindo impostos, comissões, despesas financeiras, administrativas, etc.

Vejam bem, uma despesa de R$ 20 milhões!

Dificilmente a implantação do selo fiscal proporcionará ao setor um faturamento que justifique o seu uso, pois a recuperação do investimento em maquinário, contratação de pessoal e a colocação do selo em si requer um faturamento muitas vezes maior haja vista que há, pelo menos, 50% de impostos no valor de cada unidade vendida.

Esta medida de controle fiscal talvez sirva apenas para o governo, mas não para a sociedade, pois o mesmo arrecadará ainda mais com a selagem dos importados e, lamentavelmente, não há pessoal suficiente para fiscalizar o nosso país continente, portanto, o resultado será inócuo.

Somente com um incremento de faturamento de R$ 100 milhões por ano fará valer a pena tal medida. Um faturamento deste montante significa estimar a venda de 10 milhões de unidades a um preço médio de R$ 10,00 a unidade, Oxalá isto seja possível, caso contrário todos sairão perdendo e só o governo terá vantagens.

Werner Schumacher

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Tem uva de graça na Festa da Uva

Em todas as edições da Festa da Uva de Caxias do Sul é comum a distribuição gratuita de cachos da fruta. Neste ano, no entanto, é muito importante esta ação, pois com o preço que estão pagando pela fruta, abaixo do mínimo de R$ 0,46, muitos agricultores caxienses devem ter sido beneficiados, uma vez que os organizadores estimam distribuir mais de 250 toneladas de uvas isabel, niágara branca e rosada.

Embora a distribuição gratuita possa ser um apelo para atrair maior público, pois o valor do ingresso R$ 7,00 durante a semana e R$ 10,00 nos fins de semana, mais do que paga o custo da fruta, mas isto não tira de forma alguma o mérito da ação.

Daqui pra frente precisaremos de muitas festas e muito público, para poder escoar a produção da fruta com dignidade para o produtor.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Falso Pinot Noir, um escândalo…

… francês ou americano?

Há pouco assistimos à denúncia de vinhos argentinos com o antibiótico natamicina e agora estamos diante de mais um grande escândalo: a venda entre 2006 e 2008 de mais de 13 milhões de litros de vinho da região de Languedoc-Roussillon tidos como Pinot Noir, mas na verdade um corte das variedades merlot e syrah.

Todo este vinho foi vendido para a empresa californiana E. & J. Gallo, nada mais, nada menos, que o maior produtor e engarrafador de vinhos do mundo. Para que tenham idéia, a produção desta empresa é duas vezes maior que a brasileira. Para visitá-la, é preciso percorrer o seu parque industrial com carro elétrico, como os utilizados nos campos de golfe.

Dizem que sequer a região francesa consegue produzir este volume do vinho Pinot Noir. Os diretores da cooperativa Sieur d'Arques foram condenados, no entanto, a imagem do vinho regional ficou manchada e, sem dúvida, redundará em sérios prejuízos para o comércio internacional de vinhos e a confiança dos consumidores.

Por outro lado, como pode a maior empresa do mundo deixar se enganar pelo produtor francês? A corporação não possui qualificação técnica suficiente para detectar se o vinho era da variedade Pinot Noir ou não? Como se comportará o consumidor daqui para frente?

O vinho importado pela Gallo era destinado para a linha Red Bicyclette, que inclusive destacava o estilo de vida francês e proveniente de uma região demarcada.

É, a venda de gato por lebre, ocorre em toda a parte e isto é muito ruim para o mundo do vinho, ambos os produtores são culpados por mais este triste caso.

Menos mal que novos movimentos vão surgindo para defender e garantir a qualidade dos vinhos produto da terra e do amor do homem a mesma, como é o caso do MOVI – Movimento de Vinhateiros Independentes, criado no Chile por 12 vinícolas que lutam contra uma indústria cada vez mais impessoal, dominada pela tecnologia e refém das leis de mercado, onde grandes conglomerados dividiam o espaço com endinheirados investidores, verdadeiros mecenas do vinho, este pequeno grupo de idealistas decidiu que era hora de fazer barulho. Veja mais em: (http://www.enoeventos.com.br/colunistas/lalas/lalas053.htm)

Parece que a UVIFAM não está sozinha nesta luta por produtos honestos e que revelem o amor pela terra e pela capacidade de extrair da mesma o que ela pode nos dar, produtos genuínos, culturais e históricos.

Menos nutritivos e saudáveis do que parecem

É fácil sermos vítimas das expectativas, e é também fácil explorá-las diante dos outros. Os publicitários também sabem disso, e suas propagandas têm o objetivo de criar e explorar as nossas expectativas.

Os néctares e refrescos são casos típicos deste abuso, os consumidores alimentam a expectativa que são de frutas, portanto, saudáveis, mas não o são, pois são menos nutritivos que os sucos naturais e integrais.

Os néctares possuem teores de suco de fruta entre 20 e 30%, portanto, os nutrientes de um suco integral são diluídos em até 5 vezes, ou seja, ao comprar uma garrafa de suco de uva integral você poderá diluí-lo em 4 ou 5 vezes que terá o mesmo valor nutritivo de um néctar. O valor do litro de um suco integral está em torno de R$ 6,00 e aquele de um néctar custa R$ 3,00. Diluindo-se 1 litro de suco integral com 3 litros de água, se obtém 4 litros, consequentemente o custo passa a ser de R$ 1,50, mas o consumidor prefere gastar o dobro com néctares provavelmente porque o gostinho dos conservantes, aromatizantes e do açúcar de cana adicionados devem torná-los muito mais saborosos.

O caso dos refrescos a diferença é uma verdadeira aberração, pois os teores de suco da fruta variam entre 2 e 10%, ou seja, o suco integral pode chegar a ser 50 vezes mais concentrado, logo, mais nutritivo e saudável.

Que dirá então dos sucos chamados em pó que tem 1% de fruta liofilizada (desidratada) e uma marca chegou a obter um certificado da Associação Brasileira de Pediatria de que estes produtos são vitamínicos, pela adição de vitamina C, aliás prática comum nos néctares como conservante e alguns também tem a cara de pau de dizer que são ricos em vitamina C.

O poder da publicidade e do marketing é tão grande que uma simples embalagem pode nos levar a crer (expectativa) que determinada bebida é tão saudável quanto à fruta in natura que originou o produto.

O IDEC - Instituto de Defesa do Consumidor, de São Paulo, realizou uma pesquisa com 12 desses produtos adquiridos em supermercados da capital paulista e constatou várias irregularidades: mostra que a maioria das marcas avaliadas de bebidas e néctar de frutas contém corantes, açúcar e conservantes em excesso.

O resultado mostra que as bebidas estão longe de ser tão saudáveis quanto os sucos das frutas.

Os néctares, geralmente vendidos em embalagens de 1 litro, são diluições açucaradas de sucos concentrados. Chegam a ter cerca de 100 gramas de açúcar por litro, o equivalente a dez colheres de sopa cheias - alerta a coordenadora da pesquisa Vera Barral. O excesso de açúcar causa prisão de ventre, dificulta a digestão e favorece a obesidade. Portanto, deve ser consumido com parcimônia.

Muitas bebidas contêm o corante tartrazina, que causa reações alérgicas como a asma brônquica, especialmente em pessoas alérgicas ao ácido acetil salicílico. Alguns deles, como os corantes tartrazina (INS102) e amaranto (INS123), e o conservante benzoato de sódio (INS211) são apontados como causadores de reações alérgicas e estão ligados ao aumento de distúrbios de atenção e hiperatividade infantil.

Como dito acima, outro dado que chamou a atenção do IDEC é que alguns produtos utilizam ácido ascórbico (a vitamina C) como conservante. O problema é que essa porção de vitamina C extra consta da tabela de informação nutricional, o que pode fazer o consumidor acreditar que aquela bebida é saudável. Três sucos analisados trazem no rótulo apelos do tipo "rico em vitamina C".

Outro problema, além desses, é que a norma não obriga informar o teor de polpa de fruta nas embalagens, aliás, informações é outro quesito que as empresas pecam ao não informar corretamente o consumidor.

Parece até ficção: em um clássico episódio do seriado mexicano Chaves, o garoto que dá nome ao programa se entusiasma com seu novo empreendimento - uma barraca de sucos. E, ao vender um ao senhor Madruga, pergunta: "Qual você quer? O que parece de limão, é de groselha e tem gosto de tamarindo? O que parece de groselha, é de tamarindo, com sabor de limão? Ou o que parece de tamarindo, é de limão, com sabor de groselha?".

Extravagâncias à parte, o fato é que o mercado de "bebidas de frutas" experimentou crescimento vertiginoso nos últimos anos. Entre 2004 e 2008, a venda de néctares, por exemplo, aumentou nada menos que 68%. Os números são da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e Bebidas Não Alcoólicas (ABIR).

Por fim, o IDEC dá as seguintes DICAS:

Não consuma bebidas industrializadas de frutas regularmente, pois normalmente contêm aditivos e excesso de açúcar;

Se não tiver como fugir das bebidas industrializadas, prefira os sucos integrais, que não contêm conservantes, corantes aromatizantes e açúcares;

Após abertos, os sucos, néctares e refrescos devem ser mantidos sob refrigeração e consumidos no prazo indicado na embalagem; e se for estocar o produto, escolha um local escuro e fresco.

Para saber mais veja a pesquisa do IDEC em:

http://www.idec.org.br/rev_idec_texto_impressa.asp?pagina=1&ordem=1&id=1151

Esteja atento, portanto, na hora da compra desses produtos, não compre gato por lebre.

Werner Schumacher

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Éramos “O” exemplo, agora...

...parece que estamos na contramão da história. No início do século passado muitos agricultores se uniram em cooperativas para escoar a sua produção de uva e elaborar o seu próprio vinho. A cooperativa Forqueta completou 100 anos em 2009 e junto com as demais detinham mais de 65% da produção de vinho do Estado, mas hoje não chegam a 25%.

O conceito de cooperativismo está hoje deturpado, não é mais sinônimo de união, quando um grupo social com o objetivo de desempenhar, em benefício comum, junta-se para exercer determinada atividade econômica, pelo menos é o que aparenta aqui na Serra Gaúcha, pois basta falar a palavra cooperativa e todos correm. Alguns agricultores chegam ao ponto de dizer que ainda estão associados à determinada cooperativa por causa do plano de saúde, pois está doente devido às aplicações de agrotóxico e com problemas musculares devido ao esforço repetitivo em suas atividades.

Com a “deterioração” do cooperativismo na nossa região, muitas oportunidades estão sendo perdidas. Dizem que uma empresa do Rio de Janeiro está se instalando no município de Flores da Cunha para produzir 10 milhões de litros de suco de uva integral. É sabido que o poder hoje está na mão de quem distribui o produto no mercado, ou como gostam de dizer modernamente, tem a logística, portanto, não basta produzir. Mas isto não impede de que em forma associativa se tenha tanta competência quanto qualquer grande fabricante, já que a distribuição está na mão dos atacadistas.

Esta empresa fluminense está vindo competir em um território e mercado dominado até há poucos anos praticamente pelas cooperativas.

Esta seria uma oportunidade excelente para a nossa agricultura familiar, que por falta de conhecimento não está atenta a estes movimentos e provavelmente pela ausência de entidades que apontem caminhos para ela.

Todos parecem esquecer que mais de 200 milhões de quilos de uva deixaram de ter colocação na indústria ao longo das últimas décadas pelas leis de regulamentação da fraude, ou seja, aprovaram o “conhaque” de gengibre, o “vermute” sem vinho, o “vinagre” com apenas 10% de origem vínica e, ultimamente, as sangrias, coquetéis, etc.

Como bem disse o amigo Rinaldo Dal Pizzol, até meados no século passado a elaboração de vinhos para consumo só era possível com uvas que apresentassem mais de 16 graus, as inferiores eram destinadas para destilação, base vermute ou vinagre. Aqui, portanto, está um forte golpe aplicado no produtor de uvas e, porque não dizer, na qualidade do nosso vinho, que passou a depender do açúcar de cana.

Os nordestinos parecem estar dando exemplo do novo cooperativismo para a agricultura familiar, basta ver as pequenas cooperativas que criaram para o beneficiamento da castanha de caju. Todos sabem que a fruta é abundante no nordeste, que dura no máximo 48 horas depois de colhida e o seu aproveitamento maior é mesmo a castanha. Milhares de quilos eram postos fora anualmente. Uma empresa do Ceará, inclusive, há muitos anos vem produzindo “vinho” de caju para compor bebidas mistas e fortificantes no lugar do verdadeiro vinho.

Pois bem, somente em 2004, foram produzidas 183 mil toneladas, gerando exportações apenas para a Europa equivalentes a US$ 186 milhões. A fim de aproveitar esse potencial brasileiro, a Fundação Banco do Brasil, o Sebrae, a Embrapa e a Telemar estão investindo no processo agroindustrial do caju, com o beneficiamento de castanhas e polpas. 400 produtores rurais reuniram-se para celebrar mais uma conquista no processo de beneficiamento e comercialização de castanha: a criação da central de exportação da Coopercaju - Cooperativa dos Beneficiadores Artesanais de Castanha-de-Caju do Rio Grande do Norte, que conta ainda com minifábricas de beneficiamento da castanha localizadas nos municípios de Caraúbas (Mirandas), Apodi (Córrego) e Portalegre.

Na ocasião da inauguração, o presidente da Coopercaju, Dedé Vaqueiro, fez uma animada saudação: “Nós, produtores, nunca devemos esquecer esse momento. Temos força de vontade e coragem de trabalhar. Além disso, fizemos boas parcerias com pessoas certas e órgãos respeitados em todo o Brasil”.

Parece que carecemos de um Dedé Vaqueiro por estas bandas.

Outro bom exemplo nordestino é a criação do consórcio – outra forma associativa - Asca- Associação Sertaneja de Caprinocultores. Sem recursos, a associação nasceu cheia de sonhos, mas nenhuma cabra. Era um grupo de criadores de caprinos que não tinha cabra para criar. A única capacitação era a participação de um curso de bovinocultura leiteira, no entanto, viram que no lugar de uma vaca é possível criar dez cabras e o que come uma vaca serve para alimentar dez cabras. Começaram a economizar e em um ano conseguiram comprar 140 cabras e cada criador recebeu os animais de acordo com o seu investimento. Então receberam orientação técnica para o manejo de caprinos pelo Sebrae, mas viram que havia certo preconceito em relação ao leite de cabra, criaram então o bode móvel, um carro que circula pelos municípios para divulgar o produto com a participação de um veterinário. O leite processado no laticínio é comercializado num único ponto de venda: o ponto do bode. Lá tem iogurte, doce de leite e queijos de vários tipos... Ao lado do ponto do bode, o novo investimento da associação: um laticínio maior e dentro dos padrões de higiene.

Existem muitos Romualdos no Nordeste. Jovens que deixam sua terra em busca de uma vida melhor. Mas a peça, encenada pelo Grupo Raízes nordestinas, surgiu pra divulgar uma história real de sucesso, o caso de um grupo de produtores rurais que investiu na criação de cabras. Romualdo volta ao sertão quando vê a possibilidade de viver da criação de cabras. Para os criadores do consórcio do bode, esta oportunidade pode trazer gente de volta e, principalmente, evitar que muitos saiam.
“Me chamam de Rogério da Cabra. Me orgulha porque é um animal tão resistente como o nordestino”, diz um criador.

Parece que carecemos também de um Rogério da Cabra por aqui e de um grupo teatral que mostre o quão importante e resistente é a nossa agricultura familiar para a região, por esta razão, a importância de evitar que muitos saiam do meio rural.

Não se deve fazer apologia ao passado, mas era comum na região a repartição da carne de um boi ou porco entre as famílias de uma comunidade, bem como, a colheita da uva era feita em mutirão, hoje, no entanto, é preciso contratar mão de obra externa, vindas de outros municípios.

No município de Alterosa, em Minas Gerais, que já teve mais de 500 hectares cultivados com arroz, hoje em torno de 100, é uma tradição de mais de 100 anos a formação de um mutirão para a colheita do grão. No final da tarde, após a lida na roça agricultores se reúnem para a colheita, desta vez, de um terreno dentro da cidade. De acordo com Antônio Gomes, de 78 anos, que aprendeu com o pai e o avô, é uma cultura que o agricultor lida com a safra de arroz de forma que deixa de ser apenas um trabalho braçal. Já o agricultor Adão Cabral diz: “É improvisado. A gente vai cantando conforme a gente vai recordando e achando bonitas as músicas. A gente vai lembrando e fazendo versos”. No final do serviço, a sensação é de dever cumprido. Em gratidão, o dono da lavoura oferece um lanche para toda turma. Tudo acaba em confraternização. “Não é serviço. É só uma reunião para marcar presença das coisas antigas. É uma tradição que não pode acabar de jeito nenhum”, falou o agricultor Joaquim Cândido Ribeiro.

Em uma região cuja vocação é o turismo, mutirões com breves filós ao final do dia poderiam ser uma bela alternativa para aqueles que atuam no enoturismo.

A situação da nossa agricultura familiar é extremamente complexa, tais como: envelhecimento e masculinização da população rural, dificuldade de escoamento da produção com preços justos, falta de boas estradas, etc. Não serão exemplos como estes que resolverão os nossos problemas, mas sem dúvida são alternativas capazes de dar sustentabilidade e viabilidade as nossas pequenas propriedades rurais.