Primeiro, gostaríamos de felicitar o Miolo Wine Group pela aquisição.
Como bem diz o economista José F. Protas, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho: “O mundo todo está partindo para a formação de grandes oligopólios [no setor de vinhos]”, não apenas no vinho, vejam as fusões/aquisições dos frigoríficos de aves e carnes, entre outros, não só aqui como em todo o mundo. Ícones nacionais, como a cerveja Budweiser, sendo adquiridos, no caso, pelo grupo criado entre Ambev/Inerbrew e isto continuará, mesmo que oligopólios sejam uma falha de mercado, passíveis de intervenção governamental.
No meu tempo de estudante de economia a prática de oligopólio era tão condenada quanto à de monopólio, mas os tempos mudaram – lei, ética e moral sempre estão atrás do tempo. A lei agora é a do Mercado, ou a Lei da Selva, pois denota um certo canibalismo haja vista que empresas dirigidas por grandes CEO’s devoram outras empresas cujos CEO’s não foram competentes o suficiente. Isto é normal e até elogiável, meritocrático, só falta Prêmio Nobe. Portanto, não há nada errado, afinal, é o modelo vigente e tido como correto, no mínimo sob o ponto de vista dos negócios.
A transação é elogiável, pois mostra que o Miolo Wine Group está no caminho certo do empreendedorismo moderno, fez e faz alianças estratégicas, compras e expansão mundial dos seus negócios, mas também pelo fato de uma empresa nacional - ainda não uma grande corporação – compra uma unidade de grande corporação multinacional, fato de muito orgulho para os brasileiros.
Com a compra, a Miolo Wine Group passará a ser líder de mercado de vinhos finos, com a Aurora e a Salton, as três tomarão conta de mais de 80% do mercado de vinhos finos para produtos nacionais. Uma concentração digna de dar inveja aos países do Novo Mundo, inclusive, a Austrália.
Por outro lado, o Miolo Wine Group passa a ser também o maior proprietário individual de vinhedos no Brasil, com um total de 1.150 hectares, compatível também com o tamanho das propriedades vitícolas do Novo Mundo. Fato interessante é o que o grupo passa a ter sozinho uma área de vinhedos maior do que a metade de todos os vinhedos do Vale dos Vinhedos, inclusive com aqueles de uvas americanas, cujo último dado aponta para 2.123 hectares, por pouco que estes três não viraram loteamento, ufa!
Considerando apenas as uvas viníferas, esta área do grupo deve representar o triplo da área do vale.
Mas o feito foi muito bem visto por vários líderes do setor, o presidente Hermes Zaneti da Câmara Setorial do Vinho, o presidente Denis Debiasi do Ibravin, bem como o presidente Olir Schiavenin do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Flores da Cunha e da Comissão Interestadual da Uva, este, aliás, com muitos elogios, senão vejamos: “as vinícolas que mais honraram o pagamento pelo preço mínimo da uva foram as grandes ... uma amostra de que, quanto mais grupos organizados se aliam, mais um setor se fortalece ... individualmente vamos ter mais dificuldade de nos sustentar na atividade”, pondera.
O curioso é que esta mentalidade progressista, digna de um ferrenho neoliberal, não se aplica nos sindicatos dos trabalhadores rurais, que só sabem reclamar de preço mínimo e nada fazem para dar sustentabilidade ou viabilidade econômica e social para a agricultura familiar produtora de uva. Sabe-se, perfeitamente, que proprietário rural, mesmo pequeno, não é trabalhador, pois é detentor dos meios de produção, portanto, nunca trabalhador ou operário da terra.
Concordo plenamente com o representante dos sindicatos dos trabalhadores rurais, pois é preciso de fato concentrar as propriedades, na contramão do que prega o MST, só assim estaremos fazendo uma verdadeira revolução agrária, como diz o Lula: “jamais vista na história deste país”, mais competitiva e digna dos padrões do agrobusiness mundial.
Afinal, é possível haver latifúndio de bancos, latifúndio de montadoras de automóveis, latifúndio de carnes de frango e gado, latifúndio de meios de comunicação e tantos outros, por que não latifúndio de vinícolas.
Este é o caminho. Com números e façanhas tão impressionantes, eu só não entendo uma coisa: pra que o Selo Fiscal? Onde está a crise? A quem serve, ou a quem desejam atacar?
Economista Werner Schumacher
Blog: http://werner.schumacher.zip.net
terça-feira, 6 de outubro de 2009
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Enquanto lutamos pelo Vale, brigamos pelo Selo, a cerveja avança
É bastante perceptível na vida moderna o quanto é preciso lutar para defender direitos, quanto tempo é despendido com coisas que deveriam fluir normalmente, para que as atividades pudessem ser realizadas sem maiores atropelos.
O Brasil é o país dos bombeiros, isto é, só apaga fogo que os outros ateiam.
Muitas vezes é falha dos próprios interessados, afinal, neste mundo apressado é preciso dar prioridade ao “prioritário”, ao que dá dinheiro e assim por diante, deixa-se de lado outras questões, principalmente, aquelas de caráter humanitário.
No entanto, a grande maioria é provocada por burocratas, políticos ou pessoas que não estão diretamente ligadas às atividades comerciais, industriais, agrícolas ou de serviços.
O setor vinícola brasileiro parece ser o campeão de idas e vindas.
Assistimos esta semana o desenrolar do caso Vale dos Vinhedos, que até São Pedro resolveu interferir, mandando mais chuva do que o necessário. Quem sabe é um aviso para reservar parte dela, pois uma safra como a de 2005 pode estar se aproximando, como me alertou o “motor-homiano” Bercht em passeio pelo Vale, mas provavelmente por estarmos envolvido com isto ou aquilo, ninguém será previdente o suficiente.
Outro assunto na baila é o caso do Selo Fiscal, envolvendo entidades e mais entidades, menos a maioria das vinícolas, deputados e senadores, a Receita Federal e, por incrível que possa parecer, até a Casa Civil, quando o assunto é eminente técnico e pertinente a Receita Federal.
Sinceramente, difícil de entender, mesmo porque estamos entrando em um ano eleitoral e assuntos polêmicos não combinam com políticos.
Pois bem, não necessariamente a cerveja é um concorrente direto do vinho. Afinal é uma bebida sem tantas normas, aliás, no Brasil, ao contrário da Alemanha, é consumida “estupidamente” gelada. Já o vinho deve seguir todos os rituais, provavelmente, criados na França. Quando não há aqueles do novo mundo, como o de Gabriel Garcia Márquez, em 100 Anos de Solidão, que vinho tinto é pra tomar de noite e branco de dia.
Pois bem, na virada de 1999 para 2000 a Brahma lançou uma cerveja com garrafa similar a uma de espumante e rolha ao estilo. Lembro bem, pois a rolha era Alltec, uma empresa francesa que representei. Seguiram mais algum tempo com o produto e não sei se o tiraram de linha (descontinuaram; como gostam de dizer os marketeiros).
Este é um avanço no sentido de elevar a cerveja ao estilo de consumir espumantes, mesmo que apenas no fim de ano, afinal, esta ainda é a forma de maior consumo do produto, mas devemos recordar que a maioria só o faz por causa do estouro, pois até filtrado doce, sidra, etc. nesta hora é champanhe mesmo.
Gastronomicamente, no entanto, o consumo de cerveja era obrigatório para acompanhar sanduíches abertos, empadinhas, bolinhos de bacalhau, picles, salsicha com chucrute e muita mostarda e assim por diante. Não havia maiores preocupações de harmonização.
Mas as micro-cervejarias foram chegando e novas cervejas começaram a surgir no mercado, algumas mais encorpadas, outras produzidas dentro da lei de pureza e assim vai.
Hoje, há casas especializadas em cervejas, como uma “Birroteca” que visitei na Itália, há uns 20 anos no mínimo, tinha Brahma e Antártica. Lá provei uma cerveja belga deliciosa, fermentada na garrafa como espumante. Aqui também já há este tipo de produto. Ah! pra quem não sabe cerveja em italiano é birra.
Estas casas já estão oferecendo menus gastronômicos harmonizando cervejas e pratos, com cardápios bastante instrutivos e interessantes, seguramente, trazendo um pouco do mundo do vinho e roubando o consumo deste.
Tudo isto porque passamos a maior parte do tempo lutando e brigando. Basta comparar o que sai na imprensa sobre a indústria cervejeira e o que sai sobre a do vinho. A primeira, ampliações, no estilo de cerveja para o nordeste brasileiro, fulano comprou sicrano, enquanto as notícias do vinho são aquelas de loteamento no Vale dos Vinhedos, Selo Fiscal para vinhos, invasão de importados, produtores de uva não receberam a safra ainda e cosi via...
O Brasil é o país dos bombeiros, isto é, só apaga fogo que os outros ateiam.
Muitas vezes é falha dos próprios interessados, afinal, neste mundo apressado é preciso dar prioridade ao “prioritário”, ao que dá dinheiro e assim por diante, deixa-se de lado outras questões, principalmente, aquelas de caráter humanitário.
No entanto, a grande maioria é provocada por burocratas, políticos ou pessoas que não estão diretamente ligadas às atividades comerciais, industriais, agrícolas ou de serviços.
O setor vinícola brasileiro parece ser o campeão de idas e vindas.
Assistimos esta semana o desenrolar do caso Vale dos Vinhedos, que até São Pedro resolveu interferir, mandando mais chuva do que o necessário. Quem sabe é um aviso para reservar parte dela, pois uma safra como a de 2005 pode estar se aproximando, como me alertou o “motor-homiano” Bercht em passeio pelo Vale, mas provavelmente por estarmos envolvido com isto ou aquilo, ninguém será previdente o suficiente.
Outro assunto na baila é o caso do Selo Fiscal, envolvendo entidades e mais entidades, menos a maioria das vinícolas, deputados e senadores, a Receita Federal e, por incrível que possa parecer, até a Casa Civil, quando o assunto é eminente técnico e pertinente a Receita Federal.
Sinceramente, difícil de entender, mesmo porque estamos entrando em um ano eleitoral e assuntos polêmicos não combinam com políticos.
Pois bem, não necessariamente a cerveja é um concorrente direto do vinho. Afinal é uma bebida sem tantas normas, aliás, no Brasil, ao contrário da Alemanha, é consumida “estupidamente” gelada. Já o vinho deve seguir todos os rituais, provavelmente, criados na França. Quando não há aqueles do novo mundo, como o de Gabriel Garcia Márquez, em 100 Anos de Solidão, que vinho tinto é pra tomar de noite e branco de dia.
Pois bem, na virada de 1999 para 2000 a Brahma lançou uma cerveja com garrafa similar a uma de espumante e rolha ao estilo. Lembro bem, pois a rolha era Alltec, uma empresa francesa que representei. Seguiram mais algum tempo com o produto e não sei se o tiraram de linha (descontinuaram; como gostam de dizer os marketeiros).
Este é um avanço no sentido de elevar a cerveja ao estilo de consumir espumantes, mesmo que apenas no fim de ano, afinal, esta ainda é a forma de maior consumo do produto, mas devemos recordar que a maioria só o faz por causa do estouro, pois até filtrado doce, sidra, etc. nesta hora é champanhe mesmo.
Gastronomicamente, no entanto, o consumo de cerveja era obrigatório para acompanhar sanduíches abertos, empadinhas, bolinhos de bacalhau, picles, salsicha com chucrute e muita mostarda e assim por diante. Não havia maiores preocupações de harmonização.
Mas as micro-cervejarias foram chegando e novas cervejas começaram a surgir no mercado, algumas mais encorpadas, outras produzidas dentro da lei de pureza e assim vai.
Hoje, há casas especializadas em cervejas, como uma “Birroteca” que visitei na Itália, há uns 20 anos no mínimo, tinha Brahma e Antártica. Lá provei uma cerveja belga deliciosa, fermentada na garrafa como espumante. Aqui também já há este tipo de produto. Ah! pra quem não sabe cerveja em italiano é birra.
Estas casas já estão oferecendo menus gastronômicos harmonizando cervejas e pratos, com cardápios bastante instrutivos e interessantes, seguramente, trazendo um pouco do mundo do vinho e roubando o consumo deste.
Tudo isto porque passamos a maior parte do tempo lutando e brigando. Basta comparar o que sai na imprensa sobre a indústria cervejeira e o que sai sobre a do vinho. A primeira, ampliações, no estilo de cerveja para o nordeste brasileiro, fulano comprou sicrano, enquanto as notícias do vinho são aquelas de loteamento no Vale dos Vinhedos, Selo Fiscal para vinhos, invasão de importados, produtores de uva não receberam a safra ainda e cosi via...
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