quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

QUANTO VINHO ARTESANAL É PRODUZIDO NO BRASIL

Em primeiro lugar, façamos uma extrapolação supondo que haja 10 (dez) mil famílias produzindo vinhos nos porões ou garagens de suas casas e que cada uma produza em média 1.000 litros por ano. Isto representa um volume de 10 (dez) milhões de litro ano.

Se este volume fosse real, não representaria 5 (cinco) % do vinho consumido no país. Em outras palavras ou números, representa um consumo per capita em torno de 0,05 litros e apenas 2,5% dos 2 (dois) litros consumidos anualmente.

A produção artesanal em muitos casos é fruto do descaminho que a vitivinicultura nacional atravessa: dificuldade de colocação da produção, preços baixos e também o não pagamento da colheita, por esta razão vem aumentado e por uma única razão: é uma questão de sobreviovência.

Preocupados com o avanço deste tipo de produção, algumas lideranças do setor, consideram esta uma das causas das dificuldades pelas quais o setor vem atravessando e assim, numa verdadeira blitz, já apreenderam mais de 110 mil litros na Serra Gaúcha, aproximadamente 0,05% do consumo nacional.

Não se é a favor da clandestinidade e tampouco da sonegação de impostos, mesmo porque alguns produtos apreendidos estão fora da lei e podem ser prejudiciais a saúde do consumidor.

No entanto, este tipo de produção sempre existiu e sempre existirá. Seria um comportamento típico de avestruz ignorar este fato. Uma das soluções para este problema seria a de se considerar os sistemas tributários de microempreendedor individual e simples, bem como, criar normas para a elaboração de vinhos nestas propriedades.

Na Argentina, já é possível elaborar vinhos artesanais até 4 (quatro) mil litros por ano. Na Alemanha e Áustria, isto é permitido já há muitos anos, podendo o produtor vender apenas localmente.

Não se pode ou deve deixar ao léu este tipo produção, mas também não se pode imputar a mesma os problemas da cadeia produtiva uva e vinho nacional. Faz-se necessária a sua inclusão no mercado.

As exigências legais hoje para a instalação de uma vinícola são iguais para quem quer produzir 5 (cinco) mil litros ou 200 (duzentos) mil litros de vinho, pois não há, por exemplo, tratamento de efluentes pequenos capazes de atender esta demanda.

Por outro lado, os pequenos produtores estarão limitados a vender localmente os seus produtos por força da exigência de nota fiscal eletrônica, pois nem todos tem acesso a internet, sem a qual não se pode emitir a nota.

Por fim, cabe destacar que a tendência mundial é da diminuição da oferta de empregos, haja vista a concentração empresarial e a automatização industrial, além da necessidade de se fixar a população rural e a nossa região tem grande potencial para isto em função do turismo rural e o enoturismo.

É extraordinário o fato de que a própria iniciativa privada está assumindo o papel de Estado, pratica a fiscalização e ordena a adoção de selo fiscal. Por outro lado, pregam a economia de mercado, principalmente na hora de negociar o preço da uva.

Não considerar esta alternativa e oportunidade é decretar o fim da agricultura familiar produtora de uva na Serra Gaúcha.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Chandon - O último dos Moicanos

Todas as multinacionais que atuavam na vitivinicultura nacional deixaram o país. Estas empresas foram responsáveis na década de 80 por uma grande melhora qualitativa dos nossos vinhos. Mas multinacional não tem pátria e se movem para onde há melhores condições de produzir e lucrar.

A exceção é a Chandon, que está no país pelo crescente mercado brasileiro de espumantes e pelo fato de que a nossa uva é uma matéria-prima de excelente qualidade para a produção de espumantes. De acordo com Mevel, o enólogo da Chandon no Brasil, o produto aqui elaborado é o espumante das Américas.

O Brasil é um país muito bonzinho, apóia o Chaves, o Zelaya e recebe de braços abertos o presidente do Irã, além de praticar uma política monetária que coloca a nossa moeda no primeiro posto entre as moedas mais valorizadas do mundo.

Isto torna conveniente a importação de produtos, ficam extremamente baratos no nosso mercado e os produtos nacionais não conseguem competir, seja no mercado interno como externo. O nosso gás industrial é o segundo mais caro do mundo, o lanche Big Mac é o sexto mais caro do mundo e, disse ontem um empresário, que tem fábrica em Barem, ser a nossa água mais cara que a de lá, mesmo passando por dessalinização.

Em contrapartida, a Argentina mantém sua moeda desvalorizada (assim como a China) para favorecer as exportações de seus produtos e possui extensas áreas de terras com vinhedos. Há lá propriedades enormes, famílias sozinhas com mil ou mais hectares é comum. Como bem disse Adriano Miolo em entrevista à revista de circulação semanal: “propriedades deste porte ou maiores é condição sinequanon para ser competitivo no mercado internacional”. Colheita mecânica 24 horas por dia é possível neste país.

Aqui na Serra Gaúcha as propriedades são pequenas – em média 2 hectares de vinhedos por família – e a produção em zona montanhosa é mais custosa. De acordo com estudos realizados na Europa, a produção de uvas em montanha requer dez horas mais de trabalho que aquela em planície. Lá os produtores de vinho de montanha se uniram, criaram uma associação e recebem subsídios, pois cidades milenares estavam sujeitas a desaparecer.

Ninguém se deu por conta ainda que a Serra Gaúcha é a única região da América Latina a produzir vinhos em áreas montanhosas. A mais de 13 anos isto vem sendo dito, mas ninguém dá importância ao assunto.

Na Argentina, produções de 30, 40 ou mais toneladas de uva por hectare não é problema, é comum e esta produção é extremamente competitiva a nível mundial. Não se trata de enologia de qualidade, mas de produtos populares a preços baixíssimos.

A parte as questões monetária e cambial, melhores condições climáticas e de solo para a produção da fruta, o nosso Brasil ainda pratica uma das mais altas cargas tributárias do mundo.

Também, a nossa burocracia e o famigerado Custo Brasil, fazem com que seja melhor investir noutro país e para cá exportar. Qualquer rótulo aqui entra, não precisa seguir as normas de rotulagem exigidas para os produtos nacionais. Produtos importados entram no nosso mercado, mesmo que não permitidos legalmente de serem elaborados aqui, pela simples alegação de que são típicos em seu país de origem. E assim por diante.

A saída das multinacionais na produção de vinhos no país provocou – positivamente – o surgimento de inúmeras vinícolas. Em poucos anos o número de estabelecimento praticamente dobrou, mas é uma produção muito pulverizada e sem capacidade de logística e distribuição de seus produtos. A sobrevivência destas empresas se dá com muita dificuldade e o governo do Estado ainda aplica a substituição tributária para aumentá-las.

Não basta chorar, reclamar, etc., é preciso reestruturar a nossa vitivinicultura, pois mais de 15 mil famílias vivem da produção de uvas na Serra Gaúcha. Mesmo que outras terras, planas e mecanizáveis, sejam trabalhadas, não podemos deixar que estas famílias abandonem a sua atividade. Graças a elas vivemos em um paraíso, de extrema beleza e potencial turístico.

No entanto, a persistir a política econômica do país, as faltas de política industrial, agrícola e de planejamento, continuarão a mandar empresas para fora do país e a exportar empregos.